Laffite, o IBGE e o cinema

Lembrei de um filme que resume o que quero escrever: "Opera Curta', de Marcelo Laffite...sobre o que fala o filme? Bom leitor, você tem dois caminhos a seguir, ou tira a idéia do filme pelo que vou escrever aí embaixo, ou assiste à latinha e poupa sua miopia, fica a critério do freguês...decidiu? Não? Vou começar hein! Vá lá, eis o que me vêm na cabeça: quando saímos na rua, seja para ir ao banco pagar uma conta atrasada, ou na padaria comprar tudo menos pão, enfim, quando somos nós e eles na rua lotada, quem somos? Sim, por que perdemos a majestade do lar aconchegante e mergulhamos na democracia-generalista-dos-rostinhos-comuns-em-pleno-sol-de-meio-dia...e o que somos agora? Mais um? Menos? Somos estatísticas do IBGE ambulantes e inodoras, suamos, mas o molhado é detalhe à fotometria do governante, é perda de tempo à toalha alheia e reforça a idéia de perdidos frente ao irmão desconhecido que, outrora, na coletividade, chamamos de população...por que digo isso? Ando me perguntando se o cinema está para a realidade assim como a realidade está para o cinema, divago devagar, mas recaio sempre no que diz Abbas Kiarostami, será que é certo? Bernardet coloca Abbas no campo do minimalismo, da construção livre de ação e rica de sentido, mas nem assim o caráter filmico iraniano, ou qualquer outro, consegue dissociar Realidade fílmica e ficção...e minha pergunta é simples: somos realidade em 35MM? O Neo-realismo, a Nouvelle Vague, o Cinema novo, diriam, sim! Flaherty, Grierson, Vertov (mais timidamente), gritariam: Não! E, veja a incoerência aos olhos mais puerís: estes senhores são os pioneiros do documentário! Como o documentário se nega a ser realista? Simples, a realidade cinematográfica é por si só uma nova construção de tempo e espaço, logo, trata-se de outra esfera de ação e mímese que não a real, pensem bem: um documentário, você vai filmar no sertão da Paraíba, enquanto o cinegrafista prepara o equipamento você conversa com o entrevistado, puxa dele suas impressóes, trejeitos e manejos, ele está à vontade, sorrí, mas ligue a câmera...ele muda, empalidece, fica duro como pedra e só olha para os lados, como que fugindo da famigerada luzinha vermelha que pisca...ele dará à você o real? Não, ele montará um personagem que proteja sua verdade...os pioneiros sacaram isso, e você? Encare a realidade como o IBGE, pálida e crua, depois construa em 35MM um mundo mais colorido, longe das tendências naifs e mais perto do cinematógrapho...depois saia correndo para comprar seu pão com um sorriso nos lábios e o pensamento leve de quem brincou de cinema... cineastas, uni-vos!!!

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