Sganzerla, o meu obrigado, e o ouro carmim

"Você está maluco? Quer falar de utopia sem tocar no nome do Sganzerla?" Foi assim que meu leitor aflito começou o email...como ele terminou? Bom, pula essa...mas, dou razão à ele, é verdade, não falei do Sganzerla... Nada de outro mundo, se eu estivesse em outros mundos, mas como por aqui é heresia...lá vai: A obra síntese da importância de Rogério Sganzerla, "O Bandido da Luz Vermelha", 1968, representou um duro golpe na crítica da época, ainda relutante com os devaneios estéticos dos jovens do Cinema Novo, e perdida diante de tamanha efervecência. Afinal, muito antes de Stanley Kubrick e seu "Laranja Mecânica", Sganzerla já chocava aliando sua experiência visual rica, uma violência estilizada, e a metáfora da ação do poder repressor. Alí ganhava força um novo projeto de se abordar a realidade brasileira, batizado de Cinema Marginal e inaugurado oficialmente com o longa "A Margem", de Ozualdo R. Candeias. Logo após 'Bandido", Rogério tentou investir em filmes igualmente anárquicos, um mais saboroso que o outro: "A Mulher de todos", "Sem Essa de Aranha" e "Abismu", que para mim é o melhor de todos, pois consegue unir uma viagem delirante pelo universo policial ao som do psicodelismo de Jimmi Rendrix...pena que esse experimentalismo hoje em dia, e volto aqui ao tema da utopia de ontem e o mecanicismo de agora, não se faz presente com tamanha força...Só para destacar a força do trabalho do Cinema Marginal de Sganzerla, vale dizer que, há quem ache, no meio acadêmico, sua obra mais renovadora que a de Glauber em termos de diegética e narrativa, prefiro ficar com as duas...e dou a palavra à mestre Sganzerla: "Acho que foi justamente o nosso cinema, que é o mais criativo do mundo, que foi vítima de uma conspiração ambiental para liquidar o talento, que é matéria-prima do cinema. Essa gente não entende nada do que seja essa matéria-prima. Na prática é isso" Agora sim: precisa dizer mais?

Quero agradecer um convite vindo da terra da garoa, e, antes que algum leitor pergunte: "Por que não faz isso pessoalmente, ou por telefone? Email, não pode? Quer aparecer?" Eu já adianto logo: tal convite foi uma enorme gentileza, coisa de amigos, e como não tenho coluna em jornal, em revista, ou em qualquer puxadinho editorial, que permita tornar pública minha gratidão, e sei que tais amigos lerão, escrevo por aqui... Posso então? Obrigado...ei-lo: À ABCine, particularmente aos amigos Lauro Escorel e Carlos Pacheco: Muito obrigado pelo convite para a confraternização dos sócios em São Paulo, apesar de ainda não ter como confirmar minha presença, mesmo que em pensamento estarei com vocês...recebam meu carinho e admiração pelo trabalho contínuo à favor da união de todos em torno do crescimento da cinematografia nacional...e, no mais, telefono...

Aqui vai uma dica: O diretor francês Eric Rohmer terá dois filmes da série "Contos Morais" exibidos em São Paulo, cópias restauradas, coisa fina, são eles: "A Padeira do Bairro" e "A Carreira de Suzanne". Apesar de serem filmes da década de sessenta, não se surpreenda com a atualidade dos temas, da linguagem, nem com o sinismo que nos será exigido para entender as motivações dos protagonistas...enfim, já comprou seu ingresso? Quer outra dica? Essa é de amigo: O iraniano "Ouro Carmim", de Jafar Panahi e roteiro de quem? Abbas Kiarostami...se eu parasse por aí já seria mais do que bom, mas eu continuo...o roteiro foi baseado em uma notícia de jornal sobre um joalheiro que é morto a tiros e, logo em seguida, o atirador se suicida...à esse universo de violência, Abbas acrescenta o desejo de consumo e as ofensas que a condição social obriga muitos a ouvir...olha, essa não dá pra perder...depois não digam que...ihhh!!! Tá, tá, tá bom...não falo mais nada...que gente mais nervosa... Cineastas, uní-vos!!!

A Utopia, os 4 diretores e Dutilleux

Alguém se lembra do cinema da utopia na América latina? Aquele que se opunha à externalidade do nacionalismo, e suas respostas aos gêneros (melodrama e comédia), àquelas historias meio "carta marcada", o mocinho fica com a mocinha, o bandido morre no final, etc... alguém se lembra? Não estão ligando nome à pessoa? Eu ajudo: o cinema da utopia é aquele que se faz de normas internas, ou seja, o diretor deixa de ser um operário/assalariado (estúdios Hollywoodyanos - star system), e alcança a posição de autor, de militante político, começa a perceber, com isso, que seus filmes são uma ferramenta para mudar o mundo! Ajudei? Não? De novo: hoje em dia, vivemos um cinema globalizado, híbrido, pós-moderno, um cineminha light que se apropria de conflitos esvaziados e de um, digamos, requinte visual, para entreter o pobre do público. Mas, entre 1960 e 1975, a América latina viveu a efervecência de um cinema utópico, forte, carregado de discurso panfletário, jovem, que se opunha ao imperialismo norte-americano e tinha no Cinema Imperfeito cubano a matriz perfeita. Assim, surgiram o Cinema da Violência, na Argentina; o Cinema Indigenista, no Perú; e, o Cinema Novo, no Brasil. Falando em América latina, existe um filme do Nelson Pereira dos Santos que ajuda muito a compreender esse período, "Cinema de Lágrimas", nele, todo o clima, enfim, vejam e sintam saudades do tempo que cinema era baseado na Nouvelle Vague, no discurso engajado, na juventude, na utopia, em Walter Benjamin...por que digo isso? Por que ouço tanta bobagem por aí...desde estudantes de cinema que querem ser igual a Spielberg, passando por críticos que acham Hollywood o máximo, até chegar a cinéfilos, que se dizem cinéfilos, mas não sabem quem é Dario Argento, Pasolini, Kuleshov, ou até mesmo Joaquim Pedro de Andrade...Como não ter saudade de um tempo em que cinema era coisa séria, se media pelo discurso, não pela bilheteria, e tinha consciência do papel do público, articulando reflexão crítica e divertimento? Fala, Benjamin: "No cinema, o público não separa a crítica da fruição. Mais do que qualquer outra parte, o elemento decisivo aqui é que as reações individuais ficam determinadas desde o começo pela virtualidade imediata do seu caráter coletivo." Precisa de mais? Pano...

"Como fazer um filme de amor", do Torero...ainda não ví, mas amigos viram, tenho opiniões suficientes para atiçar minha curiosidade, porém, só vejo depois de conferir "O Circo das qualidade humanas", do Jorge Moreno, Milton Alencar, Paulo Augusto Gomes e Geraldo Veloso, isso mesmo, quatro diretores e um filme! Parece, eu disse parece, ser uma boa indicação, ganhou uma única sala, e deve sair logo, expulso por algum Blockbuster...vejamos enquanto está na telona...

Vem aí o Amazonas Film Festival...isso mesmo, é brasileiro com nome gringo...e os curadores do festival são os franceses: Jean-Pierre Dutilleux, etnógrafo e cineasta ("Raoni"; "Amazon Forever") e Lionel Chouchan, organizador de mostras de cinema mundo afora...isso é um festival globalizado ou o quê, hein? Ah! Tem mais, ele é fruto de uma parceria entre o governo do Amazonas e o grupo de comunicação francês, Le Public Système Cinema...Os nove trabalhos em competição são: "Buffalo Boy", de Minh Nguyen-Vô, "The Forest", de Didier Ouénangaré e Bassek Ba Khobhio, "Paper Dove", de Fabrizio Aguilar, "Quase Dois Irmãos", de Lucia Murat, "September Tapes", de Christian Johnston, "Story Undone", de Hassan Yektapanah, "Tae Guk Gi", de Kang Je-gyu, "The Snow Walker", de Charles Martin Smith, e "Three Suns", de Richard Hobert. Vamos ver que bicho sai dessa selva...cineastas, uní-vos!!!

 

 

 

Cinema a R$2,00 e a gramática na berlinda

Ação de marketing, boa vontade ou oportunismo? Essas dúvidas surgiram na cabeça quando me dei conta que no dia do cinema nacional, a rede Cinemark, oferece um ingresso promocional, R$2,00, para que o público se delicie com o cinema brasilis...tudo bem, qual é o problema nisso? Eles não estão ajudando a divulgar as latinhas nacionais? Não estão revertendo os lucros para incentivar as novas produções e festivais? Então. Opa, opa, calma lá. Não vamos simplificar a receita só porque o bolo é gostoso, pensa aqui comigo: quais os filmes agraciados? Ei-los: "Olga", Monjardim; "Redentor", Cláudio Torres; "Sexo Amor e Traição", Jorge Fernando; "Cazuza, o tempo não pára", Sandra Werneck e Walter Carvalho; "A Dona da História", Daniel Filho; "Querido estranho", Ricardo Pinto e Silva; "Cinegibi, o filme", José Marcio Nicolosi; "Onde anda Você", Sérgio Rezende; "O outro lado da rua", Marcos Bernstein, e "Pelé Eterno", Aníbal Massaíni. Pronto! Notou o que alguns deles tem em comum? Te dou um tempinho...e agora? Nada? Lá vai a dica: Começa com Globo e termina com Filmes...pois é meus amigos...são 10 filmes, desses, 60% levam o carimbo Globo Filmes, e os outros 4?, pergunta meu leitor desconfiado, bom, os outros 4 tem atores ou diretores da rede Globo de televisão...Ah, diria Dona lourdes (lembram dela?), mas hoje em dia só tem filme da Globo por aí...desculpe dona Lourdes, não é verdade, tem mais gente fazendo cinema do que julga nossa vã filosofia...festival nacional é abrir os multiplex para os curtas universitários, mostrar o cinema do nordeste, da Amazônia, do sul, trazer novos diretores, filmes que não tem espaço na circuitão comercial, sangue novo, latinhas tupiniquins da silva...aí sim, eu diria que estamos comemorando o Dia do Cinema Nacional, com "D", "C" e "N". E outra: A renda será direcionada para as produções nacionais, e, se não fomos convidados para a festa, quem vai comer esse brigadeiro? Daniel Filho? De novo? Isso é um ciclo ou não? Pano...

Na matéria "Vitória dos Homens-robôs", jornal "O Dia" (08/11/2004), o jornalista Eusébio Galvão provou que realmente gostou do show do Kraftwerk no Rio de Janeiro, eis o que escreveu: "...são os pioneiros disso, continuam mandando bem. O bagulho dos quatro alemães é sinistro." Vamos por partes: realmente o Kraftwerk é o pioneiro na música eletrônica mundial, é muito justa a empolgação do jornalista, afinal os caras são bons mesmo! E ainda são referência quando o assunto é multimídia, mas, acredito que o tom e as palavras utilizadas no texto, caberiam se numa roda de amigos, tomando um choppinho e não publicado em um jornal...caro Eusébio, escreva da maneira correta, incentive seus leitores a compreender e viajar pela língua portuguesa, sim, aquela que se aprende na escola! Caso contrário, daqui a não muito tempo, seu editor vai lhe pedir uma matéria sobre o assassinato da gramática e do coloquialismo, e aí, o que dirá? Culpado? Prenda-me? Pense nisso... por que nessa você "mandou mal", entendeu agora?...cineastas e gramáticos, uni-vos!!!

A volta, o Tabú e Assunção Fernandez

De volta...me disseram que esta coluna faz falta...olha, não entendo vocês...reclamam, arrasam com o colunista, comparam-no a uma anta, pedem para que eu largue de mão, deixe de ser chato, e outras coisas impublicáveis... paro para pensar, me curvo à voz do povo, entrego os pontos, e o que acontece? Vocês querem saber por que diabos eu parei de escrever!!!! Acho que essa incoerência anda um pouco incoerente demais...mas tudo bem, segue o bonde...afinal, em tempos que Zé Renato lança um CD de Fados, Xexeu abandona sua coluna aos domingos, Cláudio Assis ainda não soltou o verbo sobre Zelito e George W. Bush é reeleito, o que posso achar estranho? Nada...

"Tabu: A Story of the south seas",(1931), de F. W. Murnau encontra-se disponível em DVD, quer alguns motivos para assistí-lo? Bom, este filme foi o último filme de Murnau, e o melhor desde "Nosferatu", é co-produzido por David Flaherty...isso mesmo, David é irmão de Robert Flaherty ("Nanook, o esquimó"), um dos pioneiros da linguagem documental, enfim, vale muito dar uma olhada atenta e demorada, eu recomendo...

Em tempos de globalização, vamos cruzar informações e rir das ironias: Steven Spielberg, cinemão com pipoca e quinquilharias de bomboniére, entrou no Guiness por ser o produtor com o maior salário anual do mundo...Por aqui, Roberto Bomtempo, que filma "Depois daquele baile", para economizar e fechar as contas no 0x0, roda na sua própria cozinha, sim, eu escrevi, sua própria cozinha...esta a locação mais barata e conveniente do mundo!!! Mas aí você, que não é bobo(a) nem nada, me diz: Sim, e daí? Eu digo, peraí... veja bem: dêem uma cozinha para Steven e U$ 200.000.000. para Bontempo...depois me responde se o cinemão e alguns cineastas são ou não plástico bolha, daqueles que só tem graça enquanto fazem ploc-ploc...enquanto os fogos estouram o espetáculo é lindo, depois fica aquela fumaça chata...vamos valorizar o que é cinema e deixar a cozinha do Bontempo em paz!!! Tô chato hoje, não? Mas foram vocês que pediram...

Salve Assunção Fernandez!!! A Raiz produtora, está completando 30 anos...quem passou por lá: Alain Fresnot, Eliana Caffé, Guilherme de Almeida Prado, Djalma Limongi Batista, e mais recentemente, Ricardo Elias, não me deixam mentir quanto à importância dessa produtora no cenário nacional.E vem aí um presentão: o lançamento em DVD do excepcional "O Homem que virou suco", de João Batista de Andrade, sócio de Assunção e cineasta com "C".Aguardem...cineastas, uní-vos!!!

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