Parará, parará: Ki lo sa?
Tá bom, tá bom...sei que de tão enfático esbarrei na grosseria. Eu sei, admito. Mas gostaria que entendessem meus motivos: como pode alguém confessar que vive e escreve sobre TV há 30 anos, desconhecer o que seja linguagem televisiva, e, paradoxalmente, defender, com unhas e dentes a, digamos, linguagem televisiva? Pára que está dando tonteira isso! Ou não? Pano pra manga...
Sigamos em frente...Me deparo com a pergunta de um leitor, desses criados à fino leite, "Por que escreves em primeira pessoa?" De início achei provocação, ele quer é me tirar das estribeiras, criar conflito em campo neutro e desestabilizar meu raciocínio...não caio mais nessa! Mas, admito às lágrimas, tenho uma queda pelos panos de manga, enfim, caí: Querido leitor de fino trato, escrevo em primeira pessoa por que se trata da minha opinião, e não quero me esconder em terceirismos comodistas, nem generalizar posições na manutenção de uma verborragia fast-food...parará, parará, parará...mandei o email feliz e aliviado, defendi minha posição mais uma vez, me senti salvando o planeta, ou meu mundo, que seja...A tréplica: "Acho mesmo é que você gosta de fantasiar, cria um personagem para sí e se esconde nele, ou seja, sua terceira pessoa é você mesmo." Isso é pior que montanha russa, vomitei. Vamos com calma, é escapismo puro: quer dizer que fantasio um personagem, que na verdade sou eu mesmo, e me escondo atrás dele para me proteger..hum, sou escudo de mim...essa teoria já foi desvendada por Milton "Eu caçador de mim..." Segue a resposta: caro leitor transcedental, em virtude de meu problema com labirintite, só pude ler seu email uma vez, por isso, não sei se compreendi bem seu raciocínio, de toda forma respondo: não crio escudos que sejam projeções de minha personalidade, pula essa, minha primeira pessoa não é estrangeira, sou eu, não há fantasia, nem esconde-esconde, e terceira pessoa é "ele" e não "eu"! Houve uma resposta por parte do leitor, mas não tive coragem de abrir, orientações médicas...
Essa é para quem pode: Robert Guédiguian, cineasta francês, terá um mini-festival na TV5, serão exibidos: "Ki lo sa", "Dieu vomit les tièdes" "À la vie, à la mort" e "Marius e Jeannette"; um programão, principalmente para quem gosta do circuito "fora-hollywood". Falando em TV5, televisão, parei um minuto para pensar em cinco programas da TV aberta que valem o ingresso...pensei, pensei, ufa! Os eleitos: Arte com Sérgio Brito (TVE); Cadernos de cinema (TVE); Provocações (TV Cultura); e, não passei de três...nem saí dos canais públicos...essa a constatação que nossas "concessões", não produzem nada além de lixo, programas vazios e superficiais, baseados na audiência efêmera e na deseducação de um povo cada vez mais mal educado. Como eu queria que as pessoas descobrissem a TVE, a TV Cultura, a Rede Brasil e deixassem de lado as baixarias, os apelos baratos e as mentiras...o dia que isso acontecer a coisa melhora sensívelmente...infelizmente a realidade ainda é triste, como lí em um cartaz afixado em uma papelaria: "Às mercadorias de mesmo valor e dois preços, vale a de menor valor." Essa a nossa realidade televisiva, não cabe como uma luva? Pano...Cineastas, uní-vos!!!
(sic) Uma resposta à sra. crítica
Pensei muito se entraria na provocação, minha consciência dá o tom: É desnecessário...qualquer pessoa sabe que se trata de um artifício para vender jornal...não vale a pena...deixa para lá...mas, e sempre tem um "mas" nesta coluna, não aguento e vou expor minha indignação novamente...aí vai: jornal "O Dia", caderno "D"...o que foi? O jornal "O Dia" também tem seu "Segundo Caderno"...criativo não? Sigamos...a Sra. Maria Helena Dutra, em seu espaço "Crítica", propõe a leitura do artigo "O que é linguagem de televisão?". Nada mais lúdico, não fosse a primeira afirmação: "Puro preconceito."(sic). O que é isso? Preconceito? Antes de continuar, reproduzo na íntegra o texto:
"Puro preconceito. Depois do sucesso da Globo filmes, e de alguns diretores como Daniel Filho, Guel Arraes, Jayme Monjardim, levando imenso público de volta ao cinema, começaram a pipocar restrições. Tudo bem, a liberdade de expressão é garantia constitucional. Só que o principal argumento dos que não gostaram dessas rentáveis produções é que elas tem linguagem de TV. Céus o que é isso? Para mim, é apenas manifestação de menosprezo de pseudo-intelectuais contra a origem e o aprendizado de muitos profissionais que fizeram seu nome na tela pequena. Todos capazes de grande arte em qualquer meio. Há quase 30 anos lidando com a TV, não sei o que significa ter ela uma linguagem específica. Para mim só existem duas, em qualquer meio de expressão que lida com imagens e palavras: a convencional - na qual o usa e se possível aprimora o estilo tradicional de clareza da exposição da história - ou a experimentalista, pela qual vai tentando renovar a maneira narrativa. O resto é besteira. Na televisão, predomina o close, recurso do qual o cinema também abusa. Continuo domingo."(sic) - "O Dia D" - 13/10/04
Resolví não esperar a continuação, ela pode piorar mais, domingo a coluna deve ser maior, cabe mais bobagem! A vaca fria: Daniel Filho em seu livro "O Circo Eletrônico - fazendo TV no Brasil", confessa orgulhoso: "Achei então, que tinha de encontrar um caminho e, para encontrá-lo, segui a sugestão do Boni: fazer um cineminha. Como? Tenho uma memória realmente abençoada para lembrar, em detalhes, as sequências dos filmes que vejo. Comecei a fazer imitações, algumas até bem baratas, das cenas que conhecia do cinema. Usava marcas de atores, enquadramentos, movimentos de câmera, o que me parecesse cabível..."(sic). Percebeu? Eis a linguagem de televisão, sra. Maria, um arremedo de técnicas cinematográficas, o próprio criador quem diz. Pseudo-intelectuais? Por favor, a sra. deveria estudar mais o meio sobre o qual escreve, são 30 anos e ainda não conseguiu definir o que é linguagem de TV? Onde a sra. esteve? Meios convencionais e experimentalistas...nessa afirmação, Bergman, Bressane, Eisenstein, Godard, Griffith, Gláuber, Hitchcock, Vertov, e outros, são reduzidos a dois pólos mediocres de definição simplista...por favor sra. Maria Helena, estude! A crítica feita ao padrão Globo filmes é meramente estética, não a sua estética bipolar, mas a que luta pela preservação de uma linguagem que favoreça a vanguarda, para que a própria TV possa absorvê-la futuramente e a sra. tenha do que falar. Claro que a volta do público é motivo de comemorações, mas isso se dá muito mais pela profissionalização da produção, pelo marketing agressivo, do que pelo apelo narrativo...enfim, fazer cinema não é encher salas, mas produzir arte! O que dizer sobre sua definição de Close-up? Prefiro me abster nessa, deixo para meus letrados leitores essa tarefa...(mas sem dar risada hein!) Acho que a sra. crítica Maria Helena Dutra só escreveu uma frase que preste: "...liberdade de expressão é garantia constitucional." Mas que às vezes é dose pra leão aturar bobagens alheias, isso é...Nesse ponto me deparo com a simplicidade de Bergman ao afirmar que seu cinema vem do teatro e a ele deve retornar...leia mais, sra. Maria! Quem sabe daqui a 30 anos a sra. não descubra o que é e de onde vem a linguagem televisiva... Cineastas, uní-vos!!!
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