Argento, Telefone Colorido e mis putas tristes
"Hoje, fazemos filmes e rezamos para que sejam vistos." Dita por qualquer pessoa como eu, essa frase cai no senso comum do chilique pragmático de um inconformado por natureza, mas quem disse foi Dario Argento, e isso me preocupa...Por quê? Bom, Argento trouxe à telona obras ímpares como: "O Pássaro das plumas de cristal"; "Suspiria"; ou, mais recentemente, "O Jogador de cartas" (ovacionado pelo público no Festival do Rio e reprisado, à pedidos, em uma sessão "Repescagem"). Sem mencionar o fato de seu trabalho como roteirista em "Era uma vez no Oeste", de Sérgio Leone. Tudo muito coerente com suas referências filmicas: Bergman, Hitchcock, Antonioni e Warhol; e as inquietudes com a obra literária de Allan Poe, trazendo à tona seu lado "sombrio". Este senhor é história, seu curriculum fala por si, e, o futuro vislumbrado o incomoda tanto quanto a mim, afinal, o cinema comercial de Hollywood engoliu a experimentação, não há mais a grande pesquisa de linguagem, os cineastas de hoje são superficiais, herméticos, enfim, fala Dario: "Hoje, são feitos espetáculos bonitos, mas o cinema de autor não existe." Há mais o que dizer?
Antes que me chamem de chato, deixa eu mudar de rumo...ou melhor, aproveitando que falei de pesquisa de linguagem, sim eu falei, o Argento falou, eu volto ao assunto: Recife, pessoas se juntam em torno da diversidade de referências e na prática de uma, digamos, "pajelança" cultural, montam uma produtora, a "Telefone Colorido". Desta mistura saem filmes como: "Resgate Cultural: o filme", de Jura ou "Parangolé"; que considero ótimos exemplos de experimentação, da tal pesquisa de linguagem a que se referiu Dario, mas que é reprimida pelo cinemão e pelo público domesticado do circuito comercial. Tudo bem, tudo bem, é um curta metragem, é despretencioso, mas existe! E faz coro com a necessidade de renovação estética e narrativa, que dá ânimo a qualquer cineasta. A "Telefone Colorido" funciona em ritmo de cooperativa, recebe idéias, produz em conjunto e realiza, fora do eixo Rio-SP, um trabalho digno de aplausos...sejamos mais orgulhosos de nosso patrimônio fílmico, poucos países, que dirá nenhum, possui filmografias regionais tão bem definidas quanto as nossas ( RJ, SP, MG, Recife, Bahia, Brasília, etc), precisamos valorizar isso e abrir nosso circuito em vista destes oásis, ao invés de copiar fórmulas Yankees e querer faturar "Oscar's" pelo mundo. Nada contra o prêmio, mas sim a favor do cinema. Pano pra manga...
Estou ansioso para ler o novo livro de García Márquez, "Memoria de mis putas tristes". Se trata da primeira obra de ficção de Gabriel em mais de dez anos, é muito tempo...bom, como de costume, ele se inspirou em experiências pessoais (as visitas que fazia a um bordel em Barranquilla - Colômbia, quando era um jovem jornalista), para dar vida à sua narrativa simples e melancólica...dá para perder? Deixe reservado seu volume, ou ente na fila, só não deixe passar...ah, Cineastas, unívos!!!
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